
Era pra ter chegado às 8h, mesmo depois de uma noite pouco e mal dormida. Era o combinado. Mas na vida de uma botafoguense é assim: a sorte parece não acompanhar muito os meus passos. Saí até cedo de casa, mas o metrô demorou um pouco. Quando chegou, todos os vagões estavam vazios menos...o meu. Fui em pé. Todos me olhavam. Podia ser porque eu não tinha penteado o cabelo. Odeio pentear o cabelo. Podia ser porque eu carregava uma bandeira gigante, uma boneca de pano com a roupa do Botafogo e estava de meia e chinelo. Bom, podia ser por isso tudo. Mas achei que fosse a meia. Resolvi tirar.
Desci atrasada, como sempre, na Sans Peña. Achei que não estivesse tanto,mas pela cara do Thiago dava pra notar que ele estava lá há muito tempo. O Rodrigo também não tinha chegado. Melhor. Não ia ser a última. A gente sempre culpa o último. Dá pra imaginar como é a amizade entre Botafoguenses? E um namoro de Botafoguenses? Todos sempre muito orgulhosos, muito certos do que dizem, muito sentimentais, muito azarados..Ninguém pra neutralizar né? Mas no fim deu tudo certo.
Depois de mais de um mês sem ver o Botafogo jogar seria a maior emoção entrar em campo e ver o recomeço de um ano. Um ano que pode ser de muitas conquistas. Um ano que pode ser de muitas derrotas. Dói um pouco pensar nos caminhos que podem ser traçados. Para um Botafoguense, o destino do time interfere diretamente nas nossas próximas decisões, nos próximos passos que iremos dar. Só queríamos estar ao lado de outros botafoguenses, cantar, torcer, nos emocionar, rezar e honrar o motivo de nós estarmos aqui.

Enfim, chegamos. Fomos direto comprar o ingresso. Fiquei imaginando se não tivesse. Enquanto procurávamos o caminho para chegar ao estádio Eucyr Resende de Mendonça, em Bacaxá, as pessoas na rua gritavam “FOGO!”, “Não podemos perder!”, “Não vamos decepcionar”.. É engraçado, mas eu me senti como se fosse um deles e estivesse pronta para entrar em campo, com a torcida lá fora gritando meu nome, incentivando.. Um pensamento um pouco Winning Eleven demais não? Mas além de Botafoguense, sou pisciana. Sonhadora, coitada.
Chegamos no tão esperado destino. Aquele micro estádio me lembrou um pouco o campo do Desportiva, em Espírito Santo. O paredão branco deu uma sensação de Região dos Lagos. Tudo muito simples. No alto do estádio, Boavista S.C (Sport Club), em letras verdes. O ingresso era vendido no bar ao lado. Um bar que tinha entrada para o lado de dentro do estádio. De forma incrível o cara quis nos vender uma blusa do Boavista. Mas depois fiquei pensando, acho que o Boavista é como se fosse o segundo time do pessoal da região. As blusas verdes pareciam pertencer a um bloco carnavalesco. O estádio tinha entradas pequenas, do tamanho de uma porta normal, mas como se fossem buracos com as catracas. Uns 20 metros de distância uma da outra. De um lado, a torcida de casa. Do outro, a torcida adversária.
Uma tremenda confusão para entrar. Mas já sabia que isso ia acontecer. Micro entradas, 5 mil pessoas, cidade pequena. Entramos, nos posicionamos. O estádio era feito de 3 arquibancadas. Uma na ala norte, uma na ala leste e outra na oeste. Cada arquibancada tinha cerca de 10 degraus. Se alongavam pelo campo inteiro. Ao fundo, na ala sul, um matagal e o banco de reservas. Na ala oeste, lá em cima, podíamos ver as cabecinhas dos jornalistas e os camarotes. O mais engraçado de tudo era ver as redondezas do estádio. Tinha gente entocada em tudo que era lugar. Em cima de um morro longe pra porra, em cima da árvore, dentro da árvore, em cima dos telhados, pendurados em qualquer lugar que desse para se pendurar..
O campo estava em péssimas condições. Tinha uma pocinha safada lá na ala esquerda do campo de ataque do Botafogo no 1° tempo que por diversas vezes quase ferrou o time. O placar era o mais legal do estádio. Manual, parecia placar de estádio pequeno daquelas cidadezinhas americanas. Daí ficava um cara lá em cima trocando os números. O cara ficava literalmente pendurado. Pelo menos devia ser melhor do que se pendurar na árvore... O mais engraçado eram as cheerleaders do Boavista. Os meninos piraram na delas!
O jogo começou. O Botafogo atacando razoavelmente, mas não conseguia finalizar. Perdia a bola sempre. O time dos caras é fraco, mas é enjoado. Pertuba. Um atacante lá deles infernizou nossa zaga. Falando em zaga, Juninho precisa fazer partidas pelo menos 10x melhores que essa para conseguir obter respeito e confiança novamente. Leandro Guerreiro foi bem, o mais seguro, talvez por ser o mais antigo do time. Não posso dizer que foi um jogão..Mas para início de campeonato...quantas emoções!

Diego correu muito, gostei. Maicosuel nem preciso dizer. Salvou o jogo. Mas que golaço de falta. Nem lembrei do Lúcio Flávio. Fazia tempo que o LF não fazia um golaço daqueles. E acho que vai ficar mais um tempinho sem fazer..rs ( Praga de Botafoguense – Dodô é a prova viva de que funciona). Alessandro, como sempre, subindo muito bem, com velocidade, explorando os espaços. Thiaguinho, pra mim, estava nervoso. Confuso, muitos passes errados, na fogueira, desatento.. É novo, deve estar sentindo falta das férias...
Apesar do sufoco, usual, que passamos para vencer o nosso “co-irmão”, o time não fez feio. Suou a camisa. Emerson aguentou até onde pôde, sangrando muito. Precisamos de mais entrosamento, mais bola no chão, mais convivência.. Vai melhorar, espero que logo. Início de temporada é sempre assim. No final, com uma puta felicidade pela vitória suada, vibramos. Ney Franco foi treinar alguns jogadores do Boavista. Não é a toa que chamam ele de nosso co-irmão. Mas nesse sábado, 24 de janeiro, o Botafogo mostrou porque nasceu da cabeça de grandes meninos e fez história nos pés de grandes jogadores. Raça, suor, roubadas de bola, sangue nas veias.. Símbolos que marcaram esse primeiro jogo do Estadual 2009. Experiência, história, glória que o Boavista talvez nunca tenha e se tiver, vai demorar para conseguir. Podemos até torcer para que sejam vitoriosos, mas estaremos sempre um passo à frente. Coisas de irmão...mais velho, mais sábio, mais time, mais GLORIOSO.