domingo, 10 de maio de 2009

Um país de musas

Africanas em uma partida de futebol: Miséria não põe fim ao sonho


Maquiagem, biquines, salto alto, unhas feitas e uma bola de futebol. O esporte das multidões tem ganhado diferentes percepções na sociedade brasileira. E embora a ascensão das mulheres na economia, na política e no meio esportivo tenha aumentado, esse pensamento sobre a insersão feminina ainda está nos primeiros momentos de gestação, tanto para os homens, como para as próprias protagonistas da mudança.

A mulher enquanto objeto de consumo e desejo continua no topo da lista, indo de encontro justamente à temática de liberdade, respeito e igualdade. Enquanto caminhamos de encontro ao que dezenas de mulheres lutaram para conseguir, esbarramos nos preconceitos enraizados e no machismo presente também em nós.
Mulher e cerveja, mulher e futebol, mulher e samba. Dessas dicotomias ainda não escapamos e não buscamos escapar. É preciso resgatar a imagem feminina e desvincular dos temas gerais e superficiais. E com certeza um concurso denominado “Musa do Brasileirão” não é uma boa maneira de conseguir isso.

O futebol, além de arte, é ferramenta de igualdade e política. Ele une povos,classes, raças, desmistifica conflitos e “acalma” nações. Em regiões pobres, o futebol é a fuga de uma realidade marcada por fome, miséria, guerras, tortura e genocídios. E mesmo um esporte tão “simples”, ainda tão poucos têm acesso.

Para muitos, o futebol é a única saída para uma vida melhor

Guardas palestinos jogam futebol no quartel-general do Hamas, em Gaza, no primeiro dia da trégua com Israel

Na África do Sul, um grupo de mulheres luta para instaurar o futebol como esporte em uma região rural do país. A carência esportiva é consequência, principalmente, do Apartheid, malogrado regime político racista que discriminava os negros e restringia os seus direitos. O presidente do Comitê Organizador da Copa de 2010, Danny Jordaan, classificou essa miséria cultural como um dos piores legados do sistema político.

Para esse país, a realização do maior evento esportivo, além de movimentar a economia, trará alegrias para seu povo e a esperança de uma vida com mais oportunidades. E o Brasil, enquanto país do futebol, deve honrar o esporte e a tradição que carrega na camisa e nos pés de ilustres jogadores. Respeitemos então, o papel que as mulheres têm no futebol e o poder que ele tem de tranformar a vida de milhares de pessoas que vivem na miséria. Promoveremos assim, debates e discussões que elevarão o potencial de nações subdesenvolvidas no esporte.

Eu, enquanto mulher, honro o papel feminino no esporte e em diversos degraus da organização política e econômica nacional. Se não podemos abolir concursos desse tipo, votemos nos protagonistas das histórias mais bonitas. Aquelas que experimentam todos os dias as belezas e as alegrias que arte do futebol bretão proporciona são as mais fortes candidatas. Portanto, para musas, eu voto nelas.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Na derrota, a lembrança de uma glória



Final da Copa do Brasil de 1999 - Botafogo x Juventude

Fácil nunca foi. Ninguém nunca disse que seria. Aguentar 90 minutos de pura pressão, sofrimento, lágrimas, emoção à flor da pele. Não, não seria fácil. Mas aturar 120 minutos de dúvidas, expectativas, desespero, delírios e enfim, fracasso. Gritos de alegria. Não os meus. Ninguém nunca avisou que seria quase impossível.

Dói. Mas não dói só pelo placar. Machuca pelos milhares de espaços vazios ao lado de cada um de nós, botafoguenses, que rezaram juntos, que se abraçaram naquele lance de quase gol. Despedaça por nos sentirmos sozinhos, desprotegidos por não pertencer à um todo. Porquê esse todo, simplesmente não existiu.

Entristece, por saber que aquele timaço de 68, já não existe mais. A lembrança ficou em quadros, livros, fotografias e imagens de um passado cada vez mais distante, que não se faz presente na nova geração de botafoguenses.Para os amantes do futebol, o significado do esporte vai além das entrelinhas de um dicionário. A emoção da conquista de um título, da comemoração de um drible, do enfurecimento pelas vaias. Tudo isso faz parte de um espetáculo de emoções.

Futebol é arte. Arte já feita pelas pernas tortas de garrincha, pelas pernas na zaga impenetrável de Nilton Santos.É preciso resgatar o sentimento do futebol arte e jogar fora o futebol esporte. O esporte diverte,é entreternimento. A arte é para ser apreciada, é magnífica em sua essência. Hoje, para pouco mais de 10 mil botafoguenses, o futebol foi arte. Foi emoção. Foi um sofrimento indescritível. E ainda é. E vai ser. Guardaremos na memória e passaremos para os nossos filhos as imagens e sensações do fracasso, do choro, da lágrima contida por vergonha, por orgulho.

Passemos adiante a experiência e acenderemos neles então, a vontade de revivê-las. O sentimento não pode morrer. O Botafogo não pode ser apagado. Cresceremos então. Talvez não em número. Mas os poucos, serão realmente loucos. Os espaços vazios então, darão lugar à uma nova geração de torcedores, amantes, apreciadores de uma arte sem igual.